Capitao ZoioA Festa dos bichos da mata

 

Muito bons dia, prás vossa senhoria! Prá quem num me cunhece, minha graça é Jose Severino da Luz Cicero, nome que me foi dado por meu painho, que ele teje em bom lugar, em homenage ao meu santo padim “padincissu”, de quem sô fervoroso devoto. Mas sô conhecido mesmo é por CapitãoZóio, cabra macho, cangaçeiro, que já teve,inté, o merecimento de bebe garapa na mesma cuia que Lampião. Mais isso é uma outra prosaprum outro dia, numa outra ocasião.

Hoje, eu vô conta proceiscumé que foi que eu fiquei cego dum oio, como foi que se queimôa minha visão. Oceis pode acha que foi marvadeza de argum bandido, o trocano tiro cos “macaco”, mais num foi ansimnão visse, foi per causa dum diacho duma festa… A mais mio que já fui em toda a minha vida… Esse causo Curisco já conhece.

Aconteceu lá pros lado do chapadão.  Era uma noite clara como dia, a lua tava cheia, bunita e brilhante… tava um vento muito quente, tão quente que mais parecia era o bafo do “coisa ruim” assoprano no meu cangote, um silêncio que nem grilo se ouvia, só o ronco dos cabra do meu bando que tava tudo drumino.

Eu tava ali, apreciando a lua enquanto pensava em Maria Fulô, uma moça muito formosa com quem quero mecasá quando, do nada eu vi ummuleque, um negrin zunindo que nem rastilho de pórvora na minha frente, o miserarve mais parecia era um pé de vento de tanto que corria.

Ia pensa arguma coisa, mas antes de eu pensa, já vem ele de novo cortando o chapadão na carrera. No susto, fui atrás… Mas quem disse que eu consegui arcançá o moleque? Até que tenta eu tentei, mas o diacho correu por demais e eu fiquei ali, esbaforido, quase que nem conseguia respirá.

No que tava atrás dele, cumecei a ovi uma canturia danada, pensei: diacho, será que tem otro bando por aqui, será que é “macaco”? Parei a correria, e fui indo devagarinho inté acha uma moita na beira do barranco donde eu me acocorei prámode vê se era otroscangaçero ô se era as volante dos “macaco”. Mais num era nada disso, era uma festa, um rasta-pé arretado, parecia que tava era bom por demais. Era festa mais luxenta que eu já tinha visto na minha vida. A festa dos bicho da mata!

Eu fiquei lá, quietinho por detrás duma moita, quando derrepente…Otro susto. Num é que o negrin que eu tava seguindo tava atrás de min e era o saci-pererê, ele e aquele otromuleque do cabelo afogueado e dos pé prá traz, o tar de curupira. Eles me cercaro porque acharo que eu tavaali pra faze argumamarvadeza. Só adispois de muita prosa, muito trelelê é que eles intendero que eu tava ali só de curioso e me dexaroentrá na festança.

Logo de cara fui reconhecendo os dois bicho que mais me fizero medo quando eu era criança, lá no sertão, na casa de mainha. Uma foi Cuca, ela se achego e vei com prosa.

Oi Severino, ocê se alembra de mim?

Foi ansim não, prumode que Cuca tem voz estridente de taquara rachada. Foi ansim:

Oi Severino, tu te alembras de mim?

E cumé que num ia mealembra, dona cuca, pois num era a sinhora e mais o seu amigo, o boi da cara preta, que ia toda noite lá em casa de mainha pra mode me fazê medo?

É, mais isso já passô, tu agora é home feito, né?

É, e num tenho medo de nada vivo nesse mundo, visse?

Eu sei, e nem é pra isso que vosimecê tá aqui, né? Fique carmo e vá bebê uma garapa prámodeadispois caí no forró, que o fole aqui vai a noite inteira.

A prosa andô mis um tempo, aí chegô aquele safado do boto cor-de-rosa e tirô ela prádançá. Ôtro que tumémtava lá era Chibungo… Esse é cabra safado, gosto dele não, visse?Prucuasa dele muitas criancinha sumiu lá na minha terra… Quando elas chorava de noite, com fomeprumode que num tinha oque cumé, ele vinha sorrateiro, pegava ela botava no saco e levava pra caatinga, aí ninguem mais via. Só depois de muitos dia é que se achava era uma cruz no meio da mata.

Arresorvimoia a palavra.

Ô seu caipóra, dá uma garapinha aí, amigo.

Toma lá Severino, mais vê se num vai isparrama aí pelos cantoiguar os pirilampo das fada… oia lá ó, tá tudo escornado ali, e nem vão dançá mais, de tão tonto que tão.

Podechá seu caipóra, tôacustumadointé cum chumbo derretido.

Na festança, conheci muitosdos bichos da mata: o boitatá, aquela serpente gigante que vigia as floresta e queima os invasor que vão lá prájudiá dos bicho sem queima nem uma folha de árvore ou uma formiga se quer, a galega de branco, Dona Helena, uma moça muito formosa que apaixono e casô cum padre e virô a mula sem cabeça, inté seu Serafin e seu fio Lorenço… Diz que ele, o Lorenço, foi o primerolobisomedessas banda. Vi muita coisa tumen: curupira carçandoprecata, saci forrozando que nem pé-de-vento, a mula-sem-cabeça bebeno água… Mais a coisa mais formosa que já vi na minha vida foi Iara, mãe e protetora dos rio.

Já no finzinho do rasta-pé, quando tupã já tava indo embora prámode guarda a lua e o céu já começava a clareá… Quando o primeiro raio de sol apareceu entre as foia das arvore, Iara saiu do rio, linda como ela só, prádispersá os bicho da mata e marcáotra festança. Diz que é desse jeito que ela cuidoa dos seus fio e mantem eles no arcançe de seus óio.Aí o saci me falô:

Oia, pru causa de sua formosura ninguém pode oiá pra Iara. Sua boniteza é capais de cegácorque um. Num trisca os oio nela não, visse?

Mais quem foi que falô que eu escuitei o que aquele negrim sapeca me disse?

Fechei os óio como todo mundo fez… Mais quando aquela moça mais linda do mundo saiu do rio, e com a voz mais doce me chamô, eu sintí uma tremura nas pernaque nem consegui arresponde. Daí ela me disse:

Olhe Capitão, eu te trouxe aqui hoje pois vou te confiar uma missão.

Mas eu, rainha? O que um home sem curtura como eu pode fazê por vosmicê?

Você vai viajar por outas terras levando o meu recado.

Pois mande, rainha.

Tu vais dizer prás pessoas cuidarem dos rios, das floresta e dos animais. Vais dizer prá cuidarem do futuro das crianças e respeitarem a sabedoria dos velhos, vais dizer que amem suas famílias, que guardem e cultivem suas estórias e culturas para que elas não se percam no tempo. Vais dizer, ainda, que a terra é um ser abençoado mas que, se não soubermos viver em harmonia, ela terá um fim terrível. Leve este meu recado à todos quanto puderem te ouvir. Este será o teu legado, meu amigo.

Ela disse isso tudo e foi se afastando prô rio. Nessa horaeu num guenteisegurá a vontade de vê a protetora dos rios e dos bichos, abri um oio só um triscadinha de nada… Des desse dia prá cá todo mundo me conhece por Capitão Zóio, cabra macho, cangacero, que já teve, inté, o merecimento de bebê garapa na mesma couia que Lampião, mais isso é uma outra prosa, prum outro dia, numa outra ocasião.

 

Entendemos que a prática da contação de histórias contribui efetivamente para a transmissão da literatura oral e das atividades relacionadas à leitura, além de ajudar na perpetuação da nossa herança cultural.

Fábulas, contos populares e folclóricos, casos, verdadeiros ou fictícios, parlendas e cantigas infantis e de roda são contemplados de modo a instigar a imaginação e fantasia de quem as ouve, além de fomentar e estimular o gosto pela literatura.

A cada mês estaremos conhecendo ou relembrando um pouco das culturas do nosso folclore através das histórias que serão narradas aqui. Esperamos que gostem.

 

Matéria: Mateus Madeira (Pedagógo formado pelo Centro Universitário Estácio de Sá de BH)

Mateus Madeira

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